Voltamos ao Brasil. Após 100 km de asfalto reto e vazio, estávamos em Boa Vista, onde ficamos alguns dias. O próximo destino foi Rorainópolis, a segunda maior cidade de Roraima, com 25 mil habitantes. De lá, ainda pela BR174, continuamos rumo sul.
Descruzamos a linha do Equador, que havíamos cruzado em Macapá, para depois trafegar 122 km dentro da reserva indígena Waimiri-Atroari, onde 1252 índios vivem atualmente. Depois de algumas centenas de quilômetros, finalmente chegamos a Manaus.
Essa coisa de cruzar e descruzar o Equador na mesma viagem traz um inconveniente. Na Amazônia, as estações de chuva e estiagem são opostas dos lados opostos do Equador. Quando é época de chuva acima, é estiagem (isto é, pouca chuva) abaixo, e vice-versa. Desse modo, não há como sair de carro do sul e cruzar o Equador sem dar de cara com a temporada de chuvas. Ou antes, ou depois, elas são inevitáveis. Como o foco da viagem era as Guianas, optamos por trafegá-las numa época razoavelmente seca. Mas o preço foi tomar MUITA chuva na Amazônia brasileira.
Mas foi muita chuva mesmo! A coisa começou a pegar após Manaus, quando entramos na malsinada BR319, a mais selvagem estrada brasileira. Ela foi inaugurada em 1973, durante o regime militar, como parte da política de colonização da amazônia. Rasgou inutilmente uma região totalmente desabitada. Era, e continua até hoje, a única ligação por terra entre Amapá e Manaus e o restante do país. A construção precária, aliada a absoluta ausência de manutenção, transformaram a estrada em algo intransitável uma década após sua construção. Atualmente, exceto por suas cabeceiras em Humaitá e Manaus, a BR319 é um rasgo estreito e desabitado, quase engolida pela floresta. São dois os maiores obstáculos para trafegar a BR319: as pontes quebradas ou quase, e os extensos lamaçais no período das chuvas.
Esta foi minha terceira incursão na BR319. A primeira foi em 1986, quando fiz de Ônibus (Viação Cascavel) o trecho Manaus-Porto Velho. Depois, em 2009, fiz o percurso inverso na companhia de outros sete veículos 4×4. Dessa vez, estávamos sós. Aliás, nem a Rita quis nos acompanhar nessa travessia lamacenta. Inventou uma desculpa e tomou um avião de Manaus para Campinas. Restamos apenas Sérgio e eu, heroicamente na ONÇA.
Deixamos Manaus numa terça-feira bem cedo, fim de janeiro, para pegar a balsa que cruza o Solimões e dá na entrada da BR319. Os primeiros 110 km foram de asfalto. A última oportunidade de abastecimento aconteceu no município de Careiro. A partir daí foram centenas de quilômetros num caminho estreito, lamacento, quase totalmente desabitado, no meio da floresta. Dormimos a primeira noite ao pé de uma das torres da Embratel que estão pelo caminho. Chovia fora e dentro da barraca. Normal. Já acostumamos. Nesta viagem ou choveu todo dia, ou choveu o dia todo. Para continuar rodando, usamos todo o nosso repertório: pneus mud, tração 4×4, bloqueio nos dois diferenciais, guincho, âncora de solo … e reza brava.
Pior ainda eram as pontes. Algumas delas eu olhava, olhava, olhava até bater uma coragem irresponsável que me fazia engatar e ir em frente. Vejam essa da foto. Andei por ela para acreditar que se resumia mesmo a dois troncos da largura dos pneus. Depois, cruzei guiado pelo motorista de um caminhão que esperava ali parado há alguns dias esperando por alguém que viesse dar manutenção ao caminho. No meio da travessia, tirei cabeça para fora da janela e olhei o pneu dianteiro esquerdo. Estava lá, inteiro ocupando o caibro, como o pé da ginasta ocupa a trave. Fiquei com tanto medo que não mais olhei para fora. Fixei o olhar no motorista que me sinalizava e segui em frente. A travessia durou uma eternidade.
E foi assim, entre atoleiros e pontes suicidas que íamos vencendo a distância até Humaitá. O caminho deserto. Num dos dias, topamos com Moisés, um garimpeiro que andava há 4 dias pela BR319 na direção de seu garimpo. Demos carona. Ele estava cansado e faminto. Havia passado a noite anterior sem dormir por causa da chuva forte e do frio. Conversamos muito e comemos um lanche juntos. Grande figura. O deixamos 50 km a frente, onde pegou uma picada e sumiu na direção de Manicoré. O caminho deserto. Noutro dia encontramos uma S10 atolada. Uma família inteira estava lá há dias sem conseguir fazer a caminhonete andar. Tiramos. As crianças sorriam feito passarinho.
No último dia de nossa travessia estávamos a 160 km de Humaitá, eram 16 horas, chovia torrencialmente. De repente a ONÇA começou a puxar cada vez mais para a esquerda. Parei e vi que a roda dianteira esquerda estava torta “para dentro”. Suspendemos com o hi-lift e tiramos a roda. Não deu outra: um dos dois parafusos da bandeja se soltara, igual havia acontecido comigo e a Rita em San António de Los Cobres dois anos atrás. Seguimos muito lentamente em diante. A noite caia, a chuva caia, lama por todo o lado, e nós a uns 10 km por hora até chegar a Humaitá no meio da madrugada. Dirigir à noite, com chuva, lamaçal, sem enxergar e com a suspensão avariada é para poucos. Como diz um site de jipeiros de Manaus: “Expedição no norte é para os fortes!”
Chegamos a Humaitá como quem chega a New York, ávidos pelos confortos e facilidades da cidade grande. Consertamos a suspensão e alinhamos a direção, lavamos a ONÇA por dentro, lavamos (e secamos!) as roupas.
No dia seguinte, muito cedo, atravessamos uma balsa e caímos na BR230, muito mais conhecida como Rodovia Transamazônica. Neste primeiro dia, percorremos o trecho Humaitá-Apiaí. No início, até o povoado chamado “Km 180″, que aliás fica a 180 km de Humaitá, a estrada estava muito esburacada e lamacenta.Chovia bastante e trafegávamos muito lentamente. Havia esparsos povoados no caminho e desmatamento às margens da rodovia. A partir do Km 180, a rodovia ficou melhor, menos esburacada. Na medida em que nos aproximávamos de Apiaí, mais e mais notava-se a transformação das margens da Transamazônica em pasto. À beira da estrada começam a aparecer fazendas com muito gado e peões. O cenário é mais de pantanal do que de amazônia. Uma tristeza.
No segundo dia, percorremos o trecho Apiaí-Itaituba. Continuam as pastagens com gado às margens da Transamazônica, agora vêm-se também caminhões carregando imensas toras de árvores abatidas e áreas de queimada. Em comparação com o que vi em 2009, o desmatamento e a agropecuária avançaram nitidamente na região. Almoçamos em Jacareacanga, uma cidade onde vivem 19 mil índios, numa população de 30 mil habitantes.
A partir de então, rumo a Itaituba, o cenário muda radicalmente. Desaparecem as pastagens e a desolação das queimadas e ressurge a floresta magnífica. Há três reservas na região: Floresta Nacional do Tapajós I, Floresta Nacional do Tapajós II e Floresta Nacional “Não Me Lembro Agora”. Isso muda tudo.
Mas, o mais impressionante é o que vem pela frente: o Parque Nacional da Amazônia: uma área imensa de floresta protegida. Rodamos cerca de 100 km dentro do Parque. A mata está intocada, beirando e comprimindo a Transamazônica. Impressionante. Sem dúvida, cruzar essa mata foi a maior emoção de toda a viagem. E uma das minhas maiores emoções na vida. Inenarrável. Anoiteceu enquanto cruzávamos o Parque. Era noite estrelada de lua nova. Uma rara noite estrelada em toda a viagem. Paramos a ONÇA sob a luz vacilante das estrelas se infiltrando pelas copas das árvores centenárias e caminhamos ouvindo os sons da floresta. Respeito e emoção. Cada um ser humano tem que viver essa experiência ao menos uma vez. Não vou afirmar que acampamos essa noite na floresta porque isso não é permitido dentro do Parque.
No dia seguinte, em Itaituba, cruzamos o Rio Tapajós de balsa, rodamos ainda em um trecho da Transamazônica e logo chegamos ao entroncamento com a BR163, rodovia Santarém-Cuiabá. Tomamos o rumo sul no entroncamento e seguimos. A mata definitivamente acabou. Apenas uns castanheiros solitários nos pastos imensos testemunham que um dia tudo isso foi floresta. A estrada melhora paulatinamente. Longos trechos de terra batida, alguns atoleiros, trechos asfaltados. Parece que logo tudo isso será asfaltado, dizem por aqui. Seguimos, seguimos viagem, seguimos. Três mil quilômetros adiante, estávamos de volta à Campinas.
- na floresta
- na floresta
- no igarapé
- amazoniño
- soja no que era antes floresta
- meninas de Itaituba
- o Tapajós em Itaituba
- igarapé
- clandestino
- de volta, a floresta
- às margens da Transamazônica
- às margens da Transamazônica
- bye bye Brasil
- encontro
- às margens da Transamazônica
- cruzando um riachinho na amazônia
- aldeia
- BR319
- a insustentável leveza do ser, BR319
- BR319
- passando, BR319
- inspecionando, BR319
- de balsa
- riacho
- equador, latitude zero
- no Equador





































































































































































































































































